Há um entendimento popular de que obras residenciais unifamiliares são obras simples e, pela ocasião, muitos dispensam alguns cuidados. Todavia, a menor proporção de cargas e porte da obra não a isenta de riscos e patologias.

Vou abordar neste artigo a importância de 3 cuidados negligenciados em pequenas obras por alguns.

1.Levantamento Topográfico

A princípio vamos falar do levantamento topográfico! Apesar do empreendimento não envolver escavação de subsolos profundos ou necessitar de terraplenagem complexa, é prudente a contratação do levantamento topográfico. Poderia elencar vários motivos, mas vou destacar a situação abaixo que julgo ser bastante importante.

A figura acima ilustra uma casa térrea com terreno acidentado. Ao fundo na lateral direita, o terreno natural vai ganhando uma queda de 11%, chegando a um desnível máximo de 197cm. Exagerado? Talvez, mas acredite, há aqueles que ignoram: principalmente o cliente que não entende a vantagem do investimento de tal serviço.

A priori poderia vir a figura do aterro implicando em problemas, como por exemplo a incerteza no procedimento orçamentário e de instalações. Porém, outro cuidado importante, talvez o mais delicado, seria a respeito da solução de fundação.

Afinal, numa solução em fundação rasa, qual seria a cota de assentamento? Como já disse, por se tratar de um obra pequena muita coisa é negligenciada, logo, esperar uma boa compactação do aterro seria arriscado.

Quando a sapata é assentada num aterro aumenta-se a possibilidade de se criar um recalque diferencial. Podendo levar a sérios problemas patológicos.

Outro problema que pode surgir com o negligenciamento do levantamento topográfico é descuidar e descobrir a necessidade de contenção lateral somente após o início das obras. 

2. Sondagem SPT

A ausência do ensaio SPT pode gerar muitas incertezas na elaboração do projeto de fundação. Entretanto, é de fato um assunto polêmico, pois nem todas as regiões estão cobertas pelo fornecimento deste tipo de prestação de serviço.

Alguns adotam soluções empíricas para conceber a solução de fundação quando não se tem o laudo de sondagem SPT, eis algumas: verificar solução dada pelos vizinhos, avaliar o solo através do contato táctil-visual, processar a estrutura com a finalidade de verificar a grandeza das cargas para que possa escolher a fundação e outros. São ações recomendáveis, porém, quando não se tem um mapeamento claro, como o laudo SPT, é preciso projetar contingências que, muitas vezes, tornam a obra mais caro.

Irei aqui citar mais um exemplo de situação que pode ocorrer.

Exemplo: Foi feito as seguintes inspeções

  1. Constatou-se que o vizinho adotou estaca broca de 3,50m
  2. Numa inspeção por meio de trado verificou-se táctil-visualmente

Pode-se perceber pelo exemplo uma situação de incerteza. Apesar das cargas serem pequenas, a estaca broca deve ser projetada com segurança. No exemplo dado, temos a limitação à 4m, pois solos arenosos saturados complicam a execução. 

Talvez pudéssemos adotar fundação rasa como sapatas, mas não sabemos ao certo o índice SPT para solucionar. Sapata em solo compressível, por mais que a carga seja baixa, é desaconselhável.

Voltando à análise da solução do vizinho, é importante ressaltar que muitas obras pequenas utilizam de soluções culturais, isto é, de práticas não assistidas por profissionais habilitados baseadas meramente em histórico da região. Não significa necessariamente que seja a melhor solução! Entretanto, funciona como um indicador! Poderíamos inspecionar a edificação afim de verificar se a solução em broca de 3,50m provocou alguma patologia.

De qualquer maneira, visto o alto grau de incerteza seria prudente acrescentar segurança ao dimensionamento da fundação ou até acrescentar uma quantidade maior de pilares para existir uma melhor distribuição de cargas (mas que poderia, por outro lado, prejudicar o aspecto arquitetônico).

3. Ensaio de Corpo de Prova/Estudo de Dosagem do Concreto

A dispensa do ensaio de rompimento do corpo de prova e estudo de dosagem do concreto gera incerteza na elaboração de projetos. E adivinha, o que o engenheiro faz quando se depara com incertezas? Isso! Superdimensiona!

Existem obras que o impacto não é tão alto, como por exemplo obras que não possuem lajes e suas estruturas suportam apenas o peso das paredes e telhados. Entretanto, quando avaliamos residências unifamiliares que recebem pisos superiores, grandes vãos e etc, a perspectiva pode ser diferente.

Exemplo: A laje do piso superior foi projetada para desempenhar Fck = 25MPa, porém constatou-se que, após o aparecimento de patologia no sistema de piso, o concreto havia alcançado Fck = 17MPa.

Certamente, um motivo a ser considerado é o aparecimento de flecha acima do limite admissível que pode ser causa da patologia no sistema de piso. Em muitos casos a manifestação patológica se apresentará ao longo do tempo, pois temos as flechas diferidas no tempo que são somadas àquelas de caráter imediato.

A questão é que se houvesse o cuidado na etapa de execução, as soluções poderiam ser dadas antes de instalar o piso e evitar o remanejo dos moradores para a execução das obras de reforço.

Na situação em que se investisse no estudo e controle da dosagem do concreto, poderia ter até evitado tal problema.

Enfim, destaquei cuidados que independem do porte do empreendimento. É preciso olhar qualquer obra como obras de engenharia de maneira a afastar a qualificação por nível de dificuldade. Claramente, também é preciso ter bom senso na proporção das escolhas.

ESCRITO POR

 

 

3 cuidados negligenciados em pequenas obras